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‘Você dá vaga para um e pensa no que aconteceu com os outros’, diz chefe de UTI do Emílio Ribas, em SP

Referência em infectologia na capital paulista está com 100% de ocupação na terapia intensiva; no dia a dia, equipe celebra quando consegue extubar pacientes de coronavírus e dar alta

Fachada do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo: referência na capital paulista atingiu lotação máxima em leitos de UTI por pacientes com coronavírus. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Fachada do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo: referência na capital paulista atingiu lotação máxima em leitos de UTI por pacientes com coronavírus. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

SÃO PAULO – Há 28 anos funcionário do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, o médico intensivista e chefe de UTI Jaques Sztajnbok já viveu e enfrentou muitas epidemias, de doenças meningocócicas a sarampo, febre amarela e H1N1. Com o novo coronavírus, o desafio é inédito. Além da gravidade dos pacientes e dos riscos de infecção entre os próprios médicos, a lotação é um problema real e sério. O instituto tem 30 leitos de UTI – todos estão ocupados hoje.

Em conversa com O GLOBO, ele conta as dificuldades de escolha sobre quem receber quando outro paciente tem alta (“Você quer acreditar que alguém na rede vai ter lugar para aquele que ficou de fora”), e como a equipe comemora as pequenas vitórias do dia a dia, como a retirada dos tubos de respiração nesta quarta-feira de uma senhora de 71 anos (“Era um caso gravíssimo, e foi incrível poder extubá-la”).

Confira o depoimento do médico a seguir:

“Principalmente para quem trabalha em UTI, aqui é o front. Pegamos os pacientes graves. É incessante. A UTI está 100% ocupada. E numa doença nova, grave, que demanda atenção. Estamos aprendendo no curso dela, e podemos estar dos dois lados do balcão. Dois médicos já tinham sido afastados por serem grupo de risco. E outro da UTI foi afastado ontem por Covid-19. Mas no hospital já tem mais gente. A questão é saber quem vai ser o próximo. Só esperamos que não sejam todos ao mesmo tempo, porque não temos muita peça de reposição. Para o plantão agora de segunda-feira já estou quebrando a cabeça para ver como vou cobrir. São 22 médicos e assistentes para dez leitos de UTI, e mais um é rotatório para diálise. O resto (o total é de 30 no Emílio Ribas) é administrado por uma organização social (OS).

Supervisor da UTI do Emílio Ribas, Jaques Sztajnbok afirma que casos de coronavírus devem aumentar nos próximos dias Foto: Reprodução
Supervisor da UTI do Emílio Ribas, Jaques Sztajnbok afirma que casos de coronavírus devem aumentar nos próximos dias Foto: Reprodução

Dos internados, apenas uma paciente tem chance de não ser Covid. Ela tinha tuberculose e fez quadro agudo respiratório. Estamos testando. Pode ser que ela tenha feito Covid em cima de uma infecção prévia. Temos de tudo. A paciente mais velha tem 78 anos. Eu me formei em 1988 na Faculdade de Medicina da USP, e três anos depois entrei no Emílio Ribas. São 28 anos no instituto, e nunca vi nada igual a isso. E olha que já enfrentamos várias epidemias. Pegamos desde os tempos de muita doença meningocócica, leptospirose, sarampo nos anos 1990, H1N1, sarampo de novo, febre amarela. Nada se compara a hoje. E sem perspectiva de término, com capacidade de infectar a todos nós.

Não penso nisso, mas claro que todos nós temos medo (de serem infectados). Mas não muda minha rotina. Só aumenta meu cuidado. É o nosso dia a dia. Temos que estar lá. Quando você trabalha na UTI, não tem muito tempo para pensar no emocional. Não tem lugar para crises existenciais no meio do tiroteio.

Mas é preocupante ver tantos casos graves chegando sem existir um tratamento específico, um antiviral determinado, que resolva. Quando chega um paciente de Covid ele ocupa o leito por tempo prolongado. São duas, três semanas em terapia intensiva, quando tudo dá certo. É um leito sendo inutilizado para atender outro paciente por esse tempo. Encheu, acabou.

Quando você tem uma vaga e cem solicitações de pessoas que você pode não estar vendo, mas cada ficha daquela é um paciente de São Paulo que está precisando, é uma situação ruim. E a escolha não é fácil. Às vezes são três pacientes para a mesma vaga em uma solicitação. Você dá vaga para um e pensa no que aconteceu com os outros. Mas ainda imagina que ele está no sistema, está na rede, e que alguém vai achar uma vaga para esse. Você quer acreditar nisso. Mas, quando tudo fica cheio, acabamos não vendo.

Não enfrentamos ainda uma situação de ter um equipamento apenas para dois pacientes. Cada leito tem um ventilador. Mas porque não enfrentamos aqui não quer dizer que não esteja acontecendo em outros lugares. Pode ser que não estejamos vendo.

Vou todo dia praticamente ao hospital. Não faço mais diferença quando é feriado, final de semana, quando não é. Todo dia vemos o mesmo. Mas meu dia começa cedo, antes do hospital. Até porque acabamos dormindo mal, é muita preocupação. Acordo 5h30, que é o momento que aproveito para estudar os artigos científicos que saíram. É um horário mais tranquilo, em que as crianças estão dormindo ainda.

Tenho uma menina de 12 anos e um menino de 10 anos. Nessa hora leio, vejo o que está acontecendo. O WhatsApp também fica cheio de coisas para resolver. Aí vou para o hospital. Chego lá, me paramento todo, com máscara, já para entrar, porque o hospital está cheio de Covid. E passamos visita com os pacientes que os residentes viram com os médicos assistentes. Discutimos os casos. Tem uma parte de ensino e outra de pesquisa em paralelo.

A cada leito que entramos temos que trocar o equipamento de proteção individual. Existe uma ordem pré-estabelecida de como se coloca o equipamento e principalmente de como retira. O ponto crítico é a remoção, porque quando se retira o equipamento ele é altamente contaminante. O problema é quando já se está em fim de plantão, exausto daquela jornada, e o risco aumenta de uma desatenção qualquer. São uns dez minutos para retirar o equipamento com segurança.

Por conta disso, e por conta da escassez global de equipamento de proteção individual, temos que usá-lo com racionalidade. Na hora de entrar em um leito, temos que planejar previamente o que fazer lá dentro e otimizar. Se antes entrávamos, ajustávamos o equipamento de ventilação mecânica, saíamos e voltávamos cinco minutos depois para outra coisa, agora temos que fazer tudo isso na mesma entrada.

Lidar com pacientes graves é o nosso dia a dia. Isso não mudou. Mas todos os pacientes agora têm a mesma situação. Nunca vivenciamos isso. Por outro lado, facilita o aprendizado da doença, de tanto ver casos. A cada dia é uma descoberta nova. Hoje foi interessante, testamos um jeito de anticoagular diferente, e ele funcionou muito bem em dois pacientes. Vibramos muito quando essas coisas acontecem. Explicamos para os residentes. Tratar desses pacientes é literalmente coisa para gente grande. Não é só o aparelho de ventilação que vai resolver o problema. Tem que ter intensivista bom, experimentado, para lidar com casos de complicação.

Tem uns momentos que valem a pena. Hoje extubamos uma senhora de 71 anos, ela tinha quadro gravíssimo. Só de ventilação mecânica foram 14 dias. Teve alteração de função renal, e foi extubada hoje, conversou consciente, e estamos prevendo alta para ela amanhã. Foi incrível. Mas não é fácil. Todos os pacientes internados estão precisando de suporte de oxigênio. E os que ainda vão ser admitidos provavelmente vão ser assim também. Já estamos para receber outros três no lugar dos outros que demos alta hoje.

Não dá tempo de pensar em beber água nem ir ao banheiro. Hoje fiquei com sede. Não deu tempo, é muita coisa para resolver, conflitos para administrar. Dá para conversar entre médicos da equipe, mas nem sempre. Quando tenho um tempo de respiro, às vezes o outro não tem. Outras vezes tem tempos de calmaria. Parece que os pacientes entram no “automático”, mas aí tem exame para checar, conversa com residente, planejamento de novos exames, discussão de casos. É uma rotina que já havia, mas agora numa situação mais corrida, peculiar. E com descobertas em tempo real.

O isolamento ajuda a achatar curva, reduzir a demanda de pacientes. Mas precisamos ampliar também nossa capacidade de admitir e dar suporte à vida dos pacientes de UTI. É o que os governos estão correndo atrás. Devem aumentar os leitos no Emilio Ribas. Há um andar onde era enfermaria, tem equipamentos de ventilação mecânica, e que poderia funcionar como leitos de terapia intensiva adaptados. Tem que aumentar, não tem jeito. O que mata o paciente é a falta de assistência médica.

O que me move para voltar no dia seguinte? Isso é o que eu faço. É o meu ofício. Sempre fiz isso, vou continuar fazendo, e adoro o que faço. E especificamente nesses pacientes vibro quando vejo algo novo funcionando, quando há um desfecho bom em um cenário tão escuro. Parece que ganhamos a partida. Três altas hoje, 3 a 0 para a gente”.

Fonte: O Globo

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