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‘As famílias estão destruídas, não podem se despedir dos seus’, conta diretora de funerária na Itália

Sócia de uma funerária em uma das cidades com maior índice de mortos pela Covid-19 da Europa, a italiana Roberta Caprini conta seus dias nas condições excepcionais da pandemia

Caixões com corpos de vítimas do coronavírus em depósito perto da cidade de Bergamo, uma das mais atingidas pela Covid-19, na Itália Foto: PIERO CRUCIATTI / AFP
Caixões com corpos de vítimas do coronavírus em depósito perto da cidade de Bergamo, uma das mais atingidas pela Covid-19, na Itália Foto: PIERO CRUCIATTI / AFP

“Trabalho com a morte, mas minha atividade não é mais a mesma. Em italiano se chama onoranze funebri (honras fúnebres), o que significa preparar o morto e amparar a dor dos familiares. O que estamos fazendo neste momento é tirar corpos dos hospitais e das casas e fechar os caixões. Como o funeral é proibido, fazemos isso sem a presença de nenhum familiar.

Se a morte ocorre no hospital, o corpo é enrolado num lençol e colocado no caixão. Esse procedimento, como obriga o decreto em vigor, deve ser feito em até 24 horas. Quando a morte acontece em casa, a família ainda tem a opção de vestir o cadáver, levando em consideração que já houve contato entre eles. Esse era o nosso trabalho antes.

As famílias estão destruídas. Não podem se despedir dos seus, não podem nem acompanhá-los até a sepultura ou ao forno de cremação. Nem no hospital os familiares podiam vê-los. É uma morte solitária também para quem fica. Muitos ligam para cá, diariamente, perguntando onde está o familiar morto, para onde foi levado. Não se sabe nem mesmo quando as cinzas serão entregues. É terrível, essa é a parte mais violenta.

Tenho 37 anos e trabalho com a morte há um ano e meio, mas minha família está nesse ramo desde o início do século passado. Meus bisavôs começaram, depois meus avôs, meu primo e meu irmão, estamos na quarta geração. Sempre em Bergamo e região (que engloba 243 distritos, total de 1,1 milhão de habitantes).

Fazemos em média, por ano, cerca de 1.3001.400 funerais. Neste último mês, e estamos no dia 30 (de março), já tivemos aqui na funerária mais de 1.100 mortos. Em menos de um mês, quase batemos o nosso número anual. É alucinante. Os números oficiais (de mortes) devem ser multiplicados por, sei lá, dez. Ao menos em relação a Bergamo, certamente o número é bem maior que o divulgado oficialmente (1.969 óbitos até o dia 30 de março). O exame não é feito em quem morre em sua residência.

Em tempos normais, trabalhamos das 8h às 17h. Neste mês, todos nós, sócios e funcionários, um total de 45 pessoas, estamos fazendo 18 horas de jornada. Há muito cansaço e medo. Tivemos cinco funcionários contagiados, e um deles morreu com Covid-19. Meu pai e meu tio também estão doentes. A equipe ficou menor.

Do início de março até o dia 20, mais ou menos, o maior número de óbitos se registrava nos hospitais. Eram cerca de 20, 25 por dia, nos hospitais e nas casas de repouso para idosos. Nos últimos dez dias, contudo, a maioria das mortes ocorreu em residências. Como os hospitais estão sobrecarregados, as pessoas são obrigadas a seguir o tratamento em casa. Esses são os casos mais difíceis para uma funerária. Na estrutura hospitalar, geralmente ligam e avisam que há dez mortos. Então vamos lá com dez caixões e fazemos tudo de uma vez. Algumas casas são distantes ou são apartamentos no quinto andar, por exemplo. Tudo fica mais difícil. Não há homens suficientes e meios de realizar o trabalho.

Estamos na linha de frente dessa pandemia, atuamos no meio da estrutura de saúde e entre as famílias. Além (do perigo) de nos contagiarmos, podemos contagiar os outros. Não há segurança no nosso trabalho. Segundo médicos, o cadáver pode transmitir o vírus até duas horas depois da morte.

No dia 12 de março, as funerárias enviaram um pedido de ajuda ao Estado italiano, encaminhado à Defesa Civil, ao governo da Lombardia (região que vive a situação mais crítica na Itália), ao sistema nacional de saúde. Ninguém respondeu. Falamos com a prefeitura de Bergamo sobre o problema, mas ela disse que não havia emergência, num momento em que nossa empresa já tinha recebido 400 cadáveres. Subestimaram o problema.

Depois que morreu nosso funcionário e outros precisaram ir para a UTI por causa do vírus, enviamos outro comunicado em que ameaçávamos fechar, pois não tínhamos mais condições de continuar. Não só a minha empresa, as outras também. Após a ameaça, eles nos responderam. Vamos ver o que vai acontecer. Queríamos comprar máscaras, luvas, material de proteção. A Defesa Civil vai consultar a Alfândega  para liberar a entrada do material na Itália. Em primeiro lugar ele deve ir para médicos e enfermeiras, claro, mas não podemos ser excluídos.

Também precisamos fazer exames para saber quem está contaminado. Trabalhamos em ambientes infectados. Se todos estivermos com o vírus, o serviço funerário para. E ele não pode parar. Eu entendo, mas não podemos continuar assim, é preciso separar os infectados dos sãos, senão a propagação  não cessa. E já se passou muito tempo. Diante da gravidade da situação, as regras deveriam ser iguais para todos. Não existe esse governo de emergência. Há pessoas isoladas nos ajudando, como policiais, e depois chegou o Exército para transportar os mortos, como se viu nas imagens que rodaram o mundo.

Não faltam caixões, como se escreveu por aí, mas a maioria é cremada. Não há uma obrigação de cremar os mortos com Covid-19, era algo que nossa funerária já fazia antes. Os fornos crematórios não estão dando conta do número, por isso o Exército teve que levar os mortos para serem cremados em outra cidade. São muitos. Em toda a província de Bergamo,  deve haver de 60 a 80 empresas fúnebres, todas estão trabalhando acima da capacidade. Estamos falando de quatro, cinco mil mortos (o dado oficial da Lombardia é de 7.199 mortes até o dia 31 de março). Um caixão não pode ficar no chão por um mês esperando para ser cremado. Esse é outro problema.PUBLICIDADE

Há muitos culpados pelo que vem acontecendo. Poderiam ter suspendido as atividades antes. Deveriam ter fechado Alzano Lombardo e Nembro (distritos de Bergamo com altos índices de contágio) quando explodiu a contaminação  no final de fevereiro. As fábricas só foram fechar muitas semanas depois. O governo pediu para todos ficarem em casa, mas depois as empresas mandaram as pessoas trabalharem. Eu faço esse trabalho, mas muitos outros não.

É cedo ainda para pensar quando tudo isso vai passar. Há muita morte em todo lugar. E não são só idosos, há pessoas de 40, 50, 60 anos. Tudo muito pesado. Tenho tanta vontade de estar perto das pessoas, seja no trabalho ou nas minhas relações pessoais. Tenho duas filhas, de 6 e 8 anos, e só pude encontrá-las nesse mês no domingo (29 de março). Muitos funcionários das funerárias não voltam para casa com medo de estarem infectados e passarem para os familiares.

É inimaginável o que estamos passando. Se você não está aqui, não tem noção. Todos em Bergamo temos algum parente ou amigo que morreu, que está na UTI ou se tratando da Covid-19 em casa. Somos pandêmicos, aqui há uma pandemia séria e verdadeira. Queria que as pessoas de fora entendessem o que aconteceu em Bergamo para que não se repita em outras partes.”

Fonte: O Globo

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