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Pandemia de coronavirus evidencia fraquezas do modelo de saúde Americano

Emergência sanitária torna um dos principais temas da campanha para a Casa Branca ainda mais relevante

Sem par em tantas coisas, os Estados Unidos se diferenciam também por serem o único país desenvolvido do mundo a não garantir serviços de saúde de qualidade aos seus cidadãos que não puderem pagar — a não oferecer o que a Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica como uma cobertura universal. Baseada em um pouco regulado setor privado, com uma forte responsabilização dos indivíduos, a saúde já era antes da pandemia de coronavírus um dos principais assuntos da eleição presidencial marcada para novembro. A emergência sanitária aguça a relevância do tema, ao deixar expostas fraquezas do sistema de proteção social do país.

Fragmentação, baixo acesso, altos gastos com burocracia, contas de hospital altíssimas e a ausência de mecanismos de amparo que servem também para conter a propagação da doença estão entre os problemas da saúde nos EUA citados por especialistas.

— A primeira coisa a entender é que não há um sistema, em termos de lógica, de racionalização, de organização, de objetivo. É um modelo muito fragmentado, com muitos buracos e muita falta de organização. As pessoas têm diversos tipos de cobertura, que variam drasticamente — afirmou Jonathan Oberlander, professor de Medicina Social da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill. — Isso realmente nos fará sofrer agora. Dezenas de milhões de pessoas não têm cobertura, e podem ter medo de ir ao hospital ou fazer testes, por causa dos custos do atendimento.

Privado e desregulado

— Mas, para haver um nível de resolução tão alto, a saúde precisa estar inserida em um sistema integral, organizada em uma rede que abarque ações, serviços, profissionais, locais de exame e unidades de atendimento. Se a atenção não for integral, mas seletiva, voltada apenas para alguns serviços como ocorre no setor privado e nos planos de saúde, isso não funciona — afirmou Isabela Soares Santos, pesquisadora do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes).

O setor privado é o principal operador do modelo americano. Segundo definição da OCDE — o chamado clube dos países ricos — ao contrário dos outros países desenvolvidos e também do Brasil, com o SUS, a saúde nos EUA pode “ser pensada como múltiplos sistemas que operam de forma independente, com pouca coordenação e planejamento”. Cada cidadão fica responsável por cuidar de sua saúde, adquirindo planos no mercado.

Em 2018, 217 milhões de pessoas tinham planos privados nos EUA, segundo o Censo. Os dois principais programas públicos, o Medicare e o Medicaid — nos quais o governo paga o atendimento de pessoas idosas ou com deficiência e o de famílias de renda baixa em unidades privadas de saúde — cobriam 57 milhões de pessoas cada, e outras 27 milhões não tinham cobertura.

Os percentuais de pessoas sem nenhum tipo de proteção diminuíram a partir de 2010, quando o chamado “Obamacare” expandiu o acesso ao Medicaid e a planos privados, mas voltou a subir a partir de 2015. No mesmo período, cresceu também o índice de “subsegurados”— pessoas com planos de saúde ruins, com franquias elevadas que impossibilitam o atendimento adequado. Quase um terço do total de segurados utiliza estes planos, que expõem também seus usuários a uma política de preços notoriamente pouco transparente. Isso leva o total de pessoas vulneráveis a quase 90 milhões.

É competência dos estados definir as políticas de preços dos planos, mas 29 deles, em 50, não têm regulações que protejam consumidores. Segundo a OCDE, o setor é “amplamente desregulado”. Desta forma, são comuns histórias de pessoas que pagam milhares de dólares por curativos, ou que, após horas em um pronto-socorro e exames simples, recebem faturas exorbitantes.

Estes riscos devem inibir pessoas que precisam de serviços de saúde para diagnosticar e tratar o vírus de procurarem assistência. O Miami Herald contou a história de um homem que, ao ir a um hospital para fazer o teste, precisou pagar US$ 3.270, enquanto uma reportagem do New York Times relatou o caso de um pai e uma filha que ficaram em quarentena num hospital por ordem do governo e receberam contas de US$ 4 mil.

— Muitas pessoas que não têm bons planos de saúde compreensivelmente terão relutância em procurar ajuda — afirmou Margaret Kruk, professora de Sistemas de Saúde da Universidade Harvard.

Segundo ela, o mais grave na crise é que “a rede de proteção social dos Estados Unidos é muito fraca”. Não há legislação nacional sobre licença médica, e em só 12 estados há leis que garantem que os funcionários doentes serão pagos. Enquanto, nos empregos mais bem pagos, a maioria desfruta do direito, na indústria de alimentos, por exemplo, quase metade dos trabalhadores não recebe nada se não trabalhar.

— A distribuição da licença médica é extremamente desigual. Todas as pessoas ricas, na prática, têm direito a ela. Já entre os mais pobres são só um em três — afirmou Kruk. — O principal método para prevenir o Covid-19 é evitar o contato. Mas a falta de licença remunerada significa que motoristas de ônibus, faxineiras e pessoas que trabalham com alimentos não pararão de trabalhar.

Ineficiência cara

Os gastos com saúde nos Estados Unidos são os mais altos do mundo — em 2016, chegaram a 17,9% do PIB, em comparação a cerca de 11% na Alemanha e na França e 10% no Canadá, países que têm indicadores como expectativa de vida e mortalidade infantil melhores (no Brasil, o gasto flutua em cerca de 8,5% do PIB). Mais da metade do valor foi pago pelo Estado, com Medicare, Medicaid e outros programas. Segundo os pesquisadores consultados, ironicamente, o sistema orientado pelo mercado nos EUA gera desperdícios com burocracia e cobrança, o que o torna ineficiente — um estudo de 2019 do Commonwealth Fund o considera o menos eficiente de todos os países desenvolvidos estudados.

Durante o atual ciclo eleitoral, o candidato Bernie Sanders, da ala progressista do Partido Democrata, propôs a criação de um sistema universal, retomando uma ideia que Harry Truman defendia em 1948. Assim como na época, a proposta foi atacada como comunista e antiamericana.

O tema da saúde divide fortemente os dois partidos, e, também, o Partido Democrata. O ex-vice-presidente Joe Biden, que virtualmente ganhou as primárias, disse que, caso se torne presidente e o Congresso aprove uma cobertura universal, irá vetá-la, devido a altos custos. Ele propõe a expansão do Obamacare.

Segundo o especialista em políticas de saúde de Harvard Robert Blendon, se a epidemia de coronavírus diminuir até o verão, sua importância durante a eleição será pequena. Caso se mantenha intensa, a discussão girará em torno de “questões práticas e de curto prazo”, como que candidato disponibiliza mais testes.

— Qualquer problema não será visto como um fracasso geral do sistema, mas uma falta de preparo ou de competência do governo — disse Blendon. — Dirão que o tema do sistema de saúde é muito importante, mas a discussão não será de fato sobre o sistema, e sim tópicos muito específicos.

Blendon afirmou que a ideia de uma rede pública encontra resistência porque, “embora os americanos tenham grandes problemas com o sistema de saúde, também têm enorme desconfiança no governo”.

— Há uma febre antigoverno muito forte nos EUA. As pessoas não acreditam que o governo irá ajudá-las. Isso só aumentou com Trump.

Fonte: O Globo

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