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A vida real no mundo virtual

Por Géssyca Souza

A internet é uma invenção incrível. Com ela você recebe e transmite informação, se comunica, aprende, ensina, compra, vende, paga contas, mata a saudade, conversa… e briga.

Quanto mais acesso temos ao mundo virtual, mais possibilidades temos. Infelizmente, muitos usam para atacar e fazer o mal para outras pessoas. Aproveitamos o anonimato e a distância corporal entre os indivíduos nas redes sociais para soltar aquilo que temos de pior contra quem nos incomoda. O motivo pode ser grave e pessoal, ou algo completamente superficial e sem ligação direta com as partes. Atacamos por política, por religião, pela aparência do outro e até por uma receita de bolo que não ficou de acordo com o esperado pelo leitor/espectador.

Já reparou que no mundo virtual ninguém se preocupa com o estado de quem vai receber o ataque? O importante é jogar o que você pensa com toda rispidez possível e que se dane, afinal, não tem ninguém ali. Ninguém quer saber se a crítica completamente destrutiva vai acabar com a autoestima do outro, se as ofensas proferidas vão causar danos terríveis no emocional de quem as recebeu.

Diversos estudos revelam que o cyberbullying (ataque e/ou comportamentos agressivos e difamatórios contra uma pessoa ou grupo), por exemplo, é tão ou mais danoso que o bullying, por acontecer numa esfera virtual e viralizar com grande rapidez, sem limitação física ou espacial (Pinto, 2011). Um ataque ou perseguição, dentro desse “universo” (ciberespaço), uma vez compartilhada, tem seu alcance ilimitado e, consequentemente, os danos também.

Hoje é recorrente encontrar notícias de vazamento de informações ou fotos íntimas, humilhações públicas, críticas pesadas em relação ao corpo do outro, piadas vexatórias, entre tantas outras formas de agredir, assediar e diminuir alguém na esfera virtual. Nos escondemos por trás de perfis fakes e/ou da invisibilidade e falta de contato físico nas redes.

O que mais assusta nisso tudo não é a crueldade. Ela existe e diversas vezes esbarramos nela por aqui, no mundo “real”. O assustador é que esquecemos que somos pessoas e que do outro lado existe um semelhante. A maioria das pessoas é incapaz de agir de forma agressiva numa interação pessoal, mas aproveita a virtualidade para esquecer do básico nas relações.

Esquecemos que a cabeça continua girando com um comentário depreciativo; que o corpo sofre com uma crítica sobre a aparência; que dá vontade de sumir quando somos expostos e colocados em situações humilhantes. Esquecemos que existe alguém de carne e osso que vai receber essas palavras de ódio ou vergonha; que existe alguém que vai preferir não estar mais vivo para não ter que lidar mais com esse problema. Esquecemos que todo mundo sofre e chora, e o nosso cérebro não difere se é virtual ou não. Ele só assimila e sente.

A internet só potencializou nossa capacidade de se comunicar e tocar o outro. Quantas vezes você sorriu ao ler uma mensagem de alguém importante? Ou se sentiu mais bonito com os likes e elogios na sua foto? Quantas vezes você pôde ler um “eu te amo” e sentiu o peito acalorado por esse sentimento? Se as redes sociais são capazes de transmitir o bem, por que esquecemos que o mal também chega no corpo, no emocional de quem lê?

Somos seres humanos lidando com outros, exatamente como nós. Uma rede social não é apenas virtualidade. Não são máquinas interagindo. Somos nós. E isso não deveria parecer tão frio e assustador.

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